quarta-feira, 16 de maio de 2012

caixa d'alma


não sentia mais as mãos. a alma fora do corpo, o corpo fora do chão. o peso caindo. apenas o peso caindo. das lembranças. dos acasos. dos descuidos. temia o fim dentro de si mesmo. das noites vazias, dos trabalhos desperdiçados. do tempo.
***
eu não sei, meu amor, o que é o amor. não sei aonde vão nossas palavras depois de serem ditas. o conjunto dessas inversões, brigas e alegrias, não sei a qual lugar pertencem, não sei. esqueço o que deve ser feito, ou o motivo de estar aqui. estou vazio. me perdi disso há muito tempo. você crê que não, e eu não entendo. as canções não me dizem mais nada sobre você, nem nunca disseram. a sua presença vazia me incomoda e dói, e não quero, nem sinto mais nada. você me faz perguntas demais, cobranças demais, me quer demais. isso sufoca e me desprende das vontades ao seu lado. preciso das outras cores, pessoas, convivências. você as afasta, não pede desculpas. é, você acha isso certo. não quero você aqui. vá dormir.
***
eu peço, minha vida, por mais paciência. também tenho dúvidas e, sim, elas costumam acompanhar o medo. de estar sempre errando, de não ser esse o sentimento certo a se nutrir. afinal, o que é um sentimento? como desprendê-lo das ideias, da curiosidade, dos meus argumentos? eu sou o exemplo da não convivência. não, eu não sei lidar com pessoas. não, não sei lidar com você. esqueço tudo capaz de te magoar porque só lembro do que já me doeu, maltratou, feriu. se às vezes minha maior vontade é te expulsar de mim, da casa, da foto, da caixinha, por que eu insisto em reprimir isso? acordo um dia pensando “ele é meu amor, meu afeto”. durmo pensando no incômodo, na chateação, na intolerância, nas falhas e faltas de respeito, consideração. preciso de zelo, sim, às vezes quero atenção. você não faz questão. não quer me ajudar a estar com você. insisto em lutar por isso, mas por que deveria fazê-lo sozinha? não consigo acordar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

verbos inúteis de adeus e descanso




o mundo canta passos lentos devagar-quase-parando. as voltas não consolam o pranto convalescente. ela precisaria de mais compreensão, apego, dessossego. não importa: ir ao show, ir à casa, à praia, à festa, à viagem, ao quarto, ao rumo estabelecido por ambos. ele pedia menos demonstrações, de alegrias ou insatisfações, menos delírios, felizes ou imbecis, menos sentimento, de raiva, culpa ou amor. e o caminho, de pedregulhos e lamentos, tentativas e desilusões, verdades e quedas, parece ainda mais folhoso, difícil, os arbustos emaranhando-se pelas pernas, a pernas se perdendo nas mentiras, as mentiras se encantando nas vontades. as mãos batendo em portas do vazio, lembranças insaturadas, de dias chuvosos e dos raios do sol tocando a cama pela manhã. ela dizia não me deixem sozinha. ele, são três e meia, hora de parar. realizar, discutir, trabalhar, descansar, esperar, debater, perguntar, destruir, comentar, dispensar, levantar, descer, gostar, diluir, instigar, divagar, irritar, descrer.

Eu não pararia de te gostar, querer, se possível isso fosse. se do juntos, uma alegria pontilhasse cada dia, em gotinhas do que você já foi. Você pararia de responder, ligar, entender, a qualquer momento. não é fácil medir importâncias. e nem peço nada, infeliz de mim, de tantos pedidos desfeitos, considerações não ouvidas. abandono a displicência. fugi da ignorância. 

***

lá fora tem.

quarta-feira, 28 de março de 2012

what should we call you


era alberto, o nome dele. não, alberto, não. adalberto. mas poderia ser flávio. ou lucas. felipe, joaquim, rafael. poderia ser tiago ou com T H, thiago. ou igor. poderia ser diogo. poderia ser qualquer um. na hora certa, os disse que pouco importava. na hora certa, falei que fossem embora. e sumissem do meu caderno. e sumissem da minha agenda. e sumissem do que me pertence. e das cortinas da casa, do shampoo do banheiro, da escova de cabelo. pedi que apenas se ferrassem, longe da minha angústia e do meu sentimento de pena. sim, eu permaneci tantas vezes, por pura pena. e pena pouca era essa que me fazia feliz. mais do que qualquer coisa. poderia se chamar henrique, ou bruno, ou leonardo. não era de verdade. não era sincero. marcelo, andré, gustavo. todos ouviram um não me importo com você, dito com ou sem palavras, num olhar livre de remorso e culpa. te chamei de joão, bernardo, heitor, marcel. te chamei de rodrigo, fernando, victor, guilherme. e nenhum deles era você. mas não os inveje. o meu desprezo está esperando por ti também. talvez daqui a um mês.

quinta-feira, 22 de março de 2012

mamihlapinatapei.


no corredor, as portas me assustam. os gritos, as janelas, as possibilidades. espero conseguir atravessá-lo. espero fazê-lo antes que ele mesmo me atravesse. e temos nos misturado, mas é tudo tão heterogêneo. tem medo no corredor. intermináveis metros de uma receosa distância mística. é um labirinto, o meu corredor. e se desvencilhar é pouco. o necessário é desentranhar, dessentir, dispensar. as ambiguidades estão permitidas, mas não as tentativas. os olhares estão permitidos, mas não as reciprocidades. não preciso nutrir a rejeição. não preciso nutrir o desgosto, a angústia. preciso esquecer do corredor. e passar por ele, apenas andar, um passo após o outro. os vultos, os sons, o vento, nada interessa. quero vida distorcida depois do caminho, mas quero vida. quero respeito solitário depois do caminho, mas quero respeito. espero que um dia o corredor tenha fim. espero um dia saber do outro lado, saber das outras portas e linhas e vidas por lá. droga de vida, se estou aqui escrevendo, é porque abri uma porta e me desviei da linha reta. agora o escuro antes da porta me parece tão nocivo. agora o mundo se repete numa sobriedade insuportável. não usem preto, não usem vermelho, sigam as regras, sigam em frente, não abandonem seu sonhos, deem tempo ao tempo. vou jogar fora esse texto e queimar as lembranças infames. fingir que a vida é só corredor. e fingir que só o corredor é a vida.

segunda-feira, 19 de março de 2012

4 de março (after time.)


as mãos doem
desenham
as entranhas
em metáforas de desconsolo
***
me entrego às chamas da morna saudade
como me aquecem!
labaredas insanas de vida sem vontade
como me atormentam!
***
morri por três vezes no caminho. os carros cheirando a não sei o quê. as vias entupidas como as veias dos velhos entupidos e as ceias dos destrambelhados ricos. tudo estúpido. como nós. e nunca seremos nada além de personagens, aquém das ficções. quem é você para mim? alguém interpretado por mim, disfarçado por você. e também sou assim. e tua vizinha, o meu pai, o porteiro, a faxineira, todos são. é a múltipla personalidade do desconhecimento. e descobrir é apenas interpretar com outros olhos. com a visão de alguém que acredita saber algo que te define. inevitável. somos personagens e isso é estranho tanto quanto esperar o tempo curar tudo. tempo não é remédio. tempo não é psicólogo. tempo não é comida, nem é professor. tempo é algo que se estabelece entre você se incomodar com algo até tomar consciência do incômodo e evita-lo. e morri três vezes no caminho do tempo, os carros cheiravam mal como um bicho cansado de suportar o hábito errado. os velhos entupidos, e as veias, e tudo mais, comigo se pareciam. e morri três vezes. e queria nascido rei, ou qualquer lixo desses que me fizesse renascer. de novo.

4 de fevereiro (de quantas velas?)


em quantas posso me dividir?
mil fractais nocivamente inocentes. caquinhos de vidro oito andares abaixo. algumas fatias de pepino afogado em shoyo. cem tirinhas da embalagem. três lixos esquecidos.
em quantas posso me dividir?
trinta mentiras e um rancor para contar a história. vinte minutos de paz numa varanda. trezentos sonhos embalados para viagem num pedido que nunca fiz.

em quantos posso me redimir?
setenta e nove linhas de verdades insanas. treze argumentos ensaiados que repeti. uma viagem prometida junto a tantas outras promessas perdidas. cinquenta e três desculpas. quatro reais e vinte e cinco centavos. sessenta dias impacientes.

não podemos redimir a divisão.

4 de janeiro/2 (seria.)


seria

como chorar outras histórias
e cair em novos abismos
viver velhas tragédias

seria
sim, seria

como abandonar mais uma conversa
de gosto pela metade
nojo e vontade

seria de dia
agonia

como deitar lado a lado
pensar separado
chorar

seria, assim
serotonina

como injetar mil alegrias contidas
vitórias abandonadas
sonhos imbecis

seria morrer
viver outro você.